Numa oficina improvisada nos fundos de uma casa em Cáceres, no Mato Grosso, o Mestre Antônio ensina a um grupo de jovens como transformar uma tora de madeira num instrumento musical. A viola de cocho — nome que vem do formato côncavo do corpo, parecido com um cocho de madeira usado para alimentar animais — é um dos instrumentos mais antigos do Brasil, com raízes que remontam ao século XVII.
Patrimônio imaterial do Brasil desde 2005, a viola de cocho é inseparável do cururu e do siriri, danças e cantos tradicionais do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que misturam influências indígenas, africanas e portuguesas numa síntese musical única. Mas como todo patrimônio vivo, ela precisa de pessoas que a pratiquem para continuar existindo.
"Aprendi com meu pai, que aprendeu com o avô dele. Se eu não ensinar, acaba", diz Mestre Antônio, 72 anos, que há 15 anos coordena oficinas gratuitas de construção e toque da viola de cocho em Cáceres.
O instrumento
A viola de cocho é feita de madeira leve — tradicionalmente o ximbuva ou o sarã — escavada com enxó para criar a caixa de ressonância. Tem cinco cordas de nylon e uma afinação própria, diferente de qualquer outra viola brasileira. O som é suave, quase sussurrado, perfeito para acompanhar as letras melancólicas e filosóficas do cururu.
Construir uma viola de cocho leva dias de trabalho cuidadoso. Cada instrumento é único, com variações que refletem a madeira disponível e a mão do luthier. "Não tem dois iguais. É como uma pessoa — cada um tem seu jeito", explica Mestre Antônio enquanto aplaina a madeira com movimentos precisos.
Novos tocadores
O que surpreende nas oficinas de Mestre Antônio é a presença de jovens — alguns com menos de 20 anos — genuinamente interessados em aprender. Não é nostalgia, é curiosidade. E em alguns casos, é identidade: jovens que descobrem na viola de cocho uma conexão com a terra onde nasceram.
"Eu não sabia que isso existia. Aí um dia ouvi numa festa e fiquei encantado. Parece que fala alguma coisa que eu não sabia que queria ouvir", conta Gabriel, 19 anos, que frequenta as oficinas há dois anos e já constrói suas próprias violas.
O Cerrado tem muitas vozes. A viola de cocho é uma das mais antigas — e, graças a mestres como Antônio e alunos como Gabriel, ainda vai soar por muito tempo.