O Cerrado está com sede. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) mostram que a região central do Brasil registrou, pelo segundo ano consecutivo, volume de chuvas significativamente abaixo da média histórica. Em algumas áreas do Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, o déficit hídrico acumulado nos últimos 24 meses supera 30%.
As consequências já são visíveis. Rios que antes nunca secavam estão com nível crítico. Reservatórios de abastecimento de cidades médias operam abaixo de 40% da capacidade. Agricultores relatam perdas de safra e dificuldades para irrigar culturas. E pesquisadores alertam que o que estamos vendo pode ser o início de uma transformação climática de longo prazo no bioma.
"O Cerrado é o berço das águas do Brasil. Ele alimenta as principais bacias hidrográficas do país. Quando o Cerrado sofre, o Brasil todo sofre", alerta o hidrólogo Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Causas e agravantes
A seca tem causas múltiplas. As mudanças climáticas globais alteram os padrões de precipitação em todo o planeta. Mas no Cerrado, há um agravante local: o desmatamento. A vegetação nativa do bioma tem papel fundamental no ciclo hidrológico — ela captura a umidade e a libera gradualmente, regulando o regime de chuvas. Quando essa vegetação é removida para dar lugar à agricultura, o ciclo se rompe.
O Cerrado já perdeu mais de 50% de sua cobertura vegetal original — mais do que a Amazônia em termos percentuais. E o ritmo de desmatamento, embora menor do que nos anos 2000, continua preocupante.
Impactos na produção
Para os agricultores da região, a seca é um problema imediato e concreto. Produtores de soja e milho relatam que a falta de chuva no período crítico de desenvolvimento das culturas comprometeu parte da safra 2025/2026. Estimativas da Conab apontam para uma redução de 8% na produção de soja no Centro-Oeste em relação à safra anterior.
Pequenos agricultores, sem acesso a sistemas de irrigação, foram os mais afetados. Alguns perderam praticamente toda a produção. "A gente planta esperando a chuva. Quando a chuva não vem, não tem o que fazer", diz o agricultor familiar Seu Geraldo, de Cristalina (GO).
Pesquisadores pedem urgência na implementação de políticas de conservação do Cerrado e de adaptação climática para os agricultores da região. O tempo, dizem, está se esgotando.