A comunidade quilombola do Kalunga, no norte de Goiás, existe há mais de 300 anos. Seus moradores são descendentes de africanos escravizados que fugiram para o interior do Brasil e encontraram no Cerrado um refúgio onde puderam construir uma vida própria, com cultura, culinária e saberes que sobreviveram ao tempo. Hoje, esse território de 253 mil hectares — o maior quilombo do Brasil — enfrenta uma ameaça diferente: o avanço da fronteira agrícola.
A pressão da soja, do milho e da pecuária intensiva sobre as bordas do território quilombola é constante. Fazendeiros vizinhos oferecem dinheiro por terras. Estradas clandestinas cortam a vegetação nativa. E a água — fundamental para a sobrevivência das comunidades — diminui à medida que o desmatamento avança nas nascentes.
Mas os Kalungas não estão passivos. Nos últimos cinco anos, a comunidade desenvolveu um conjunto de estratégias econômicas que combinam turismo de base comunitária, produção agroecológica e venda de produtos da sociobiodiversidade — como pequi, buriti e baru — para mercados especializados em todo o Brasil.
Turismo que fortalece
"O turista que vem aqui não vem ver hotel. Vem ver a nossa vida, nossa festa, nossa comida", diz Dona Maria, 68 anos, que recebe visitantes em sua casa e cozinha pratos tradicionais com ingredientes do Cerrado. Ela é uma das 47 famílias que participam do programa de turismo comunitário, que em 2025 recebeu mais de 3.500 visitantes e gerou renda média de R$ 1.800 mensais por família participante.
O turismo tem um efeito além da renda: fortalece a identidade e o orgulho cultural. Jovens que antes migravam para as cidades em busca de emprego começam a ver no território uma possibilidade de futuro. "Meu filho voltou. Ele foi pra Brasília, ficou dois anos, e voltou. Disse que prefere aqui", conta Dona Maria.
Agroecologia como resistência
Paralelamente ao turismo, um grupo de agricultores da comunidade adotou práticas agroecológicas que permitem produzir alimentos sem destruir o Cerrado. Sistemas agroflorestais que combinam espécies nativas com cultivos alimentares têm mostrado resultados promissores tanto em produtividade quanto em conservação.
"A soja dá dinheiro rápido, mas destrói tudo. A agroecologia é mais lenta, mas é sustentável. E é o que vai garantir que nossos filhos tenham o que comer", explica o agricultor José Kalunga, 45 anos, um dos líderes do movimento agroecológico na comunidade.
O desafio é escalar essas práticas e garantir acesso a mercados que paguem preços justos pelos produtos. Cooperativas e redes de consumo responsável têm sido parceiros importantes nesse processo.